BIOGRAVURA – POR JOEL GEHLEN

A DESCOBERTA DO METAL

Guido Heuer nasceu em Blumenau (SC), no vale do rio Itajaí-Açu, em 22 de junho de 1956. Introspectivo, cedo se impressionou com o raro ofício do avô paterno, Johannes, que, em meio a figuras de anjos e a inscrições lapidares, extraia do bronze o requinte de peças mortuárias, uma arte aplicada de forte tradição entre povos de ascendência germânica. As tardes, passava-as Guido na oficina sombria em que abrasava mistérios aprendendo, pela observação apenas, os princípios da transformação do metal, incluindo o manuseio de elementos químicos, soldas e reagentes.

 

O PONTO DE FUSÃO DO ARTISTA

Em 1971, depois de uma breve incursão pelo jornalismo – tendo atuado como repórter do ‘Jornal de Santa Catarina’, de Blumenau, por três meses, e da sucursal do jornal ‘O Estado’, de Florianópolis, por seis meses -, Guido Heuer decidiu dedicar-se exclusivamente ao artesanato, expressão inicial de seu percurso artístico. Ao mesmo tempo, iniciou estudo de desenho e pintura com Luiz Emmerich. Em entrevista publicada em “O Estado” (dezembro de 1971), o artista resume sua postura de então:

“Mal foi batizada a Açu-Açu [a 1ª. galeria de arte de Santa Catarina, criada em Blumenau, naquele ano, pela escultora Elke Hering Bell, recém-chegada da Alemanha, pelo poeta Lindolf Bell, vindo de São Paulo, onde liderava o movimento Catequese Poética, e pelo escritor e crítico Péricles Prade e sua esposa, Arminda], eu estava lá observando as pinturas e as esculturas. A observação, na verdade, foi minha grande mestra”.

Nessa fase, foi incentivado pelo grupo da Açu-Açu a criar jóias com o uso de técnicas de gravaçã e de fundição, movido, claro, pelo espírito da época – a renovação cultural e comportamental pós-Beatles, vivida na então provinciana Blumenau.

“Cinco da tarde. Um jovem louro sobe as escadas da galeria Açu-Açu. Olhos azuis, esguio, tateante: blumenauense no duro. Entra. Cumprimenta a geral com um ‘oi’ mais rápido que o ‘oi’. Depois, visita objeto por objeto. Olha tudo com olhos de sempre rever: atento, detalhado, perquiridor. Ás vezes toca, maneja, interroga linhas e formas: nada mais. São 15 anos cheios de curiosidade sempre renovada”. – (Jornal de Santa Catarina. Blumenau, 1971).

Seu ano inaugural foi 1972. Guido Heuer expõe pela primeira vez seus trabalhos, dividindo a mostra com Vera Pinheiro, no conjunto educacional Pedro II. A observação, o comentário e a admiração do público deram-lhe a segurança necessária ao passo seguinte. Em dezembro, participa de uma exposição de jóias e artesanato na galeria Açu-Açu, ao lado de Rubens Oestroem, César Silveira e Vera de Moura. Ali, o artesanato inspirado de Guido combinaria pedras semi-preciosas, metais, couro, conchas, ossos e bagas vegetais. No ano seguinte, ao participar no parque do Ibirapuera da Feira da Bondade, o artista blumenauense obtém o reconhecimento do jornal “Folha da Tarde”, de São Paulo, que enfatiza o caráter “leve e harmônico” de suas jóias e gravuras.

A sagração de sua linguagem artística ocorreu na 4ª. Coletiva Barriga-Verde de Artes Plásticas – mostra de arte coordenada pelo poeta e crítico de arte Lindolf Bell e maior evento cultural na Santa Catarina dos anos 70 -, na qual suas gravuras em metal receberam destaque e reconhecimento. Afinal, a quarta edição da Coletiva (1973) reunia artistas catarinenses dos mais significativos, a exemplo de Martinho de Haro, Meyer Filho e Sílvio Pléticos, Eli Heil, Elke Hering e Mario Avancini, além de Rodrigo de Haro e o então grupo dos novos, que incluía Antonio Mir, Jayro Schmidt, e Luiz Henrique Schwanke. Na abertura, o crítico carioca Walmir Ayala lançou o livro “Artes Plásticas em Questão”, ocasião em que se deteve pela primeira vez na obra de Guido, então, descrito pelo jornal blumenauense “A Cidade” (edição de 25/05/1973) como um “artista menino”, “intuitivo e autodidata” e possuidor de um “estilo surrealista”.

 

TUDO QUE RELUZ É ARTE

A inclusão de Guido na Coletiva de Artes Plásticas Catarinense, realizada no Hotel Nacional, em Brasília, de 5 a 13 de abril de 1974, reafirmou seu lugar entre os artistas, expondo ao lado de Franklin Cascaes e, de novo, Martinho e Rodrigo de Haro, Meyer Filho, Eli Heil, Elke Hering, Mir e Avancini, entre outros. “Foi muito marcante. Eu com 16 para 17 anos e o Rubens Oestroem [um de seus amigos diletos nos 70’s] com um pouco mais, estávamos no meio daquele pessoal que já tinha nome, reputação e prestígio. A exposição teve grande repercussão e nos tornamos figuras conhecidas no estado”, rememora. Logo depois, expıe com Oestroem em São Paulo, na Eucat-Expo – principal mostra de jóias do Brasil – e integra a Coletiva Catarinense de Artes Plásticas, na galeria paulistana Oca.

A afirmação de Heuer em mostras coletivas credenciou-o à primeira individual na galeria Açu-Açu, em abril do mesmo ano, com um trabalho que incorporava pesquisas inusitadas e materiais como hastes, fivelas, canos, correntes e estamparias. Na ocasião, “O Estado” registraria que “muita gente nova, com vontade de fazer arte, esperava apenas a oportunidade de emergir”, comparando o surgimento da Açu-Açu e seu papel irradiador ao apartamento da cantora Nara Leão, no Rio de Janeiro, espaço de encontro do grupo que plasmou a Bossa Nova, nos anos 50 e 60.

No entanto, o carisma de Elke Hering e sua postura enérgica no grupo da Açu-Açu seria um dos fatores que motivariam a criação da Casa do Artista, um espaço situado na rua República Argentina, 18, na margem esquerda do Itajaí-Açu, que reuniu Guido e Rubens Oestroem à ceramista Ivete Kretz e à artesã Kátia Schmidt Fonseca. Na tentativa de romper a hegemonia artística do casal Hering-Bell na cidade, a Casa era uma iniciativa arrojada e propunha-se a realizar exposições, concertos e conferências, comercializar trabalhos, editar boletins e, claro, servir de ateliê e refúgio aos jovens artistas. Movidos por essa centelha, inauguraram-na com a individual de esculturas de Antonio Mir, naquele mesmo ano de 1974, e a mantiveram atuante por dois anos. Aos 18 anos de idade, Guido Heuer tinha firmado seu lugar na arte catarinense, sendo alvo de uma análise do crítico e escritor João Evangelista de Andrade Filho, em 1975, que sintetiza essa ‘idade inicial’ do percurso do artista: “a sensibilidade plástica que o caracteriza compraz-se no contraste, sem polarização, de formas geométricas e orgânicas, de massas regulares e soltas, de vedados e vazados, de cheios e vazios, de tênues e espessos, de foscos e polidos”.

Em fins dos anos 70, intensifica sua participação em mostras coletivas, como a mostra “Arte Barriga-Verde, uma visão possível” (76), no Maison de France, a sede carioca da Aliança Francesa, e no 2º. Salão Nacional de Artes Plásticas, realizado em 1979 no Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio. Um ano depois, Guido retorna à capital fluminense para uma mostra individual organizada pela Funarte na galeria Macunaíma, com apresentação da crítica de arte paranaense Adalice Araújo:

“Embora não possa ser classificado dentro de uma corrente pop ou hiper-realista é aos dados do cotidiano e sua máxima realidade que recorre. Usando elementos da vivência diária como embalagens navalhas, prendedores de roupa, bombas de gasolina, [Guido] consegue um diálogo direto com o espectador, onde o todo concreto atinge a totalidade dos sentidos. Além do aproveitamento plástico do espaço, mimetiza o objeto engrandecendo-o. Associaçıes impõem-se naturalmente aludindo a todos os nossos problemas”.

 

O SALTO DE GUIDO HEUER

“O artista plástico blumenauense Guido Heuer expõe suas obras na Maison de France, no Rio de Janeiro. “Metais Gravados” será a denominação mais aproximada de suas obras, porque é sobre o metal que o artista investiga seu conhecimento técnico, sua sensibilidade e sua mente. Segundo Lindolf Bell, Guido tem uma linguagem plástica cujo equilíbrio e afirmação resultam da oposição de duas tendências: a forma racional e irracional, num tempo intermediário; um tempo e um tema não definitivos, razão de sua criatividade rica e fértil.” – (Suplemento JSC. Jornal de Santa Catarina. Blumenau, 21/08/1977).

 

A IDADE DAS TRANSFORMAÇÕES

A década de 80 foi vivida sob o signo da inquietação. Depois de ministrar um curso de metal gravado no XIV Rencontre Internacional des Educateurs Freinet, em Turim, na Itália (1982), Guido sentiu-se motivado a explorar novos materiais e formas de composição. Nascido às margens das águas amnióticas do rio Itajaí-Açu, seria natural que o artista se sentisse tocado pela flora abundante e, em consequência, se dedicasse à coleta de rejeitos naturais, principalmente madeira, nas praias do estado e no próprio Vale natal. Surpreendentemente, o convívio do metal gravado com os objetos forjados pela natureza operou no artista uma transformação íntima radical: em 1982, candidatou-se a vereador em Blumenau, obtendo a suplência, e, no pleito seguinte, em 1986, concorreria ao mesmo cargo pelo Partido Verde, legenda que ajudou a fundar em Santa Catarina. Depois da breve experiência político-partidária, redescobriu, nas cavas do coração, o verdadeiro ofício: a sua arte, humana arte.

Essa segunda ‘idade’ foi assim marcada pela inclusão de materiais reciclados nas composições, em ‘detritos’ como fios metálicos e tocos de madeira coletados nas areias, no refluxo das marés atlânticas. Ao definir essa fase de pesquisa, em 1989, Lindolf Bell observa que “o artista mergulha e emerge, e, coerente e autêntico, procura a medida do ser humano na arte que constrói e reconstrói”. Em outro texto do mesmo ano, publicado no “Jornal de Santa Catarina”, o poeta catarinense identifica, na obra de Guido, “texturas diversas, pontos de luz, sobreposição de elementos, surpresas abstratas, tudo se interligando em madura coerÍncia formal”. Nesse contexto, “imaginação, grafismo, repertório de sonho, fantasia e esperança” seriam os elementos definidores da sua arte, transformando o artista Guido Heuer em “um observador transparente do mundo”.

 

DO METAL À MATÉRIA DO MUNDO

Nos anos 90, Guido faz sua estréia internacional. Depois de nove exposições individuais em diferentes cidades da região Sul do Brasil, vai para Washington/EUA, através do “Passaporte da Arte Catarinense”, coletiva que passa também pela Old Dominium University Art Library (em Norfolk, Virgínia/EUA). Em 1994, realiza uma individual em Hamburgo, na Alemanha, e, em 1996, uma individual na Argo Galerie, em Viena, Áustria. No ano seguinte, participa da mostra coletiva “Artistas Latino-Americanos”, em Londres, na Le Chat Noir Galery. Guido encerra o século XX voltando à capital inglesa, dessa vez com a individual “Art Connection”, realizada na Canning House, em 2000.

Por outro lado, duas realizaçıes de “fim de século” expandiram o campo de atuação do artista: o projeto “Arte Roda”, com o duplo sentido de circunferência (a forma básica das obras) e de circulação (três módulos com múltiplos de doze obras cada foram montados simultaneamente em várias cidades catarinenses, ‘rodando’ por galerias, escolas públicas e privadas e terminais rodoviários urbanos), que atingiu um público estimado em 300.000 pessoas, e a escultura anônima , construída em aço ‘corten’ pela Metisa (Metalúrgica Timbó S.A.), com 13 metros de altura e 15 toneladas, situada em Blumenau, na margem esquerda do Itajaí-Açu, na via de acesso à ponte do Tamarindo. Inaugurado em 18 de dezembro de 1999, esse objeto escultórico de Heuer converteu-se numa referência obrigatória na arte pública do Sul do Brasil, compondo-se de “curvas que são interrogativas, se vistas em movimento, da rodovia ou da ponte, ou por trás dos prédios, na penumbra do poente: surpreendentes”, conforme o escritor Dennis Radínz.

“Herdeira direta das linhas simples e claras do Modernismo, a escultura ainda anônima de Heuer desafia o imaginário da cidade e recoloca questıes sobre arte contemporânea. Não raro desconcerta e é fonte de polêmica, uma vez que muitos vêem sentido apenas no que é figurativo, no que é simulacro ou aparência de realidade. A escultura de Guido não tem discurso e, por isso, não impõe ou delimita uma única leitura. Mais pergunta do que resposta, sua obra é idéia em estado de matéria metamórfica: as ações do tempo inscrevem no seu corpo, dia a dia, desenhos novos, rasuras na ferrugem que são o testemunho do escoar das estações”. – (Dennis Radínz. In Catálogo da escultura. Blumenau: Nauemblu, 2000).

Nesse contexto, a obra de Guido ganha o mundo e as ruas. Além de expor na Europa, faz de sua intervenção urbana um permanente diálogo com o público. Inúmeros painéis em Blumenau, Itapema e Florianópolis somam-se a obras de grandes dimensões em fachadas de edifícios de Balneário Camboriú, no litoral catarinense, compondo, na linha de prédios da Avenida Atlântica, uma inusitada galeria a céu aberto. Assim, nas idades de sua arte, da gravura à escultura colossal, lêem-se claramente os traços da singularidade de Guido Heuer, o artífice que extrai do metal a matéria metamórfica do mundo.

 

Biografura por Joel Gehlen