CRÍTICAS

“Guido Heuer personaliza e enriquece a presença do Sul na arte brasileira. Há uma lógica singular em sua obra quando impõe a organização espacial dos escultores e revela o lado criativo do artista sensível. Fiel ao plano escolhido, sua imaginação equilibra um sofisticado jogo de olhar entre a rigidez precisa das formas geométricas e as curvas linhas orgânicas.

O domínio da personalidade artística de Guido Heuer certamente determina sua arte com possibilidades universais.”

Edson Busch Machado

 

“Guido Heuer pertence ao grupo de Blumenau. Seus trabalhos se caracterizam pelo seguro background artesanal e grande respeito pelos materiais e seus condicionamentos. As chapas de metal que mostrou na Exposição em Brasília indicam uma autoridade no emprego de formas e texturas. A sensibilidade plástica que o caracteriza compraz-se no contraste, sem polarização, de formas geométricas e orgânicas, de massas regulares e soltas, de vedados e vazados, de cheios e vazios, de tênues e de espessos, de foscos e polidos. A preocupação pela ordem e o controle racional da estrutura não excluem a consideração do não-ordenado como dimensão de existência. Daí a fluidez, de algumas superfícies, flutuando entre a decisão “acabada ” da linha.”

João Evangelista de Andrade Filho

 

“Embora não possa ser classificado dentro de uma corrente pop ou hiper-realista é aos dados do cotidiano e sua máxima realidade que recorre. Usando elementos da vivência diária como embalagens, navalhas, prendedores de roupa, bombas de gasolina, consegue um diálogo direto com o espectador, onde o todo concreto atinge a totalidade dos sentidos. Além do aproveitamento plástico do espaço, mimetiza o objeto engrandecendo-o. Associações impõem-se naturalmente aludindo a todos os nossos problemas.”

Adalice Araújo

 

“Um dos artistas mais representativos da jovem arte catarinense… Proporciona ao primeiro contato com o público uma obra que está no limiar da montagem e da matriz da gravura em metal. São objetos de parede, com relevos figurativos, documentando o cotidiano e novelando toda a matéria utilizada numa clave metálica. As superfícies são sensibilizadas por mordeduras (ácido ou instrumento manual) e servem de suporte a formas triviais domésticas, que assumem a dupla função de fetiche e símbolo de um Design popular já consagrado pelo consumo. Em certos exemplares da série há uma ligação intencional do objeto com sua função. O artista usa muitos recursos de montagem, renovando texturas; sempre numa trilha coerente do brilho dos metais, contido ou revelado, de acordo com a necessidade expressiva do manipulador.”

Walmir Ayala (publicado no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro em 17.03.1980)

 

As raízes na obra de Guido Heuer se confundem com a ideia do tempo. Se de um lado esta ideia induz à memória (o tempo pretérito), de outro leva a um mergulho no tempo por vir (futuro). O encontro das duas coordenadas temporais, convergem para uma obra atual, presente, passa a ser instrumento de leitura onde, esteticamente, o que se avalia é o resumo de uma trajetória criadora. Incorporando ao material antigo (cobre e latão), a novíssima expressão da fórmica, o conhecimento plástico se enriquece e a revisão da identidade do artista se amplia. Texturas diversas, pontos de luz, sobreposição de elementos, a figura humana, vegetais, palavras, surpresas abstratas, tudo se interliga na coerência formal. Aqui tudo se pertence, pelo fio condutor da sensibilidade. Guido Heuer mergulha e emerge. Coerente e autêntico procura a medida do ser humano na arte que constrói e reconstrói.

 Lindolf Bell, poeta e crítico de arte

 

“Placas de metal que em princípio gerariam gravuras e depois seriam esquecidas na poética de Guido Heuer, ora são a obra mesma, ora dialogam com outros materiais resultando em trabalhos inusitados. Um olhar apressado na maioria das vezes deixa escapar as sutilezas do pensamento visual do artista quando da instauração de sua obra. Os planos do fundo configuram áreas de cores justapostas, e as vezes sobrepostas, onde as formas geométricas revelam um movimento sutil na medida que rompem com uma simetria clássica, evidenciando densidades diferenciadas. São grandes áreas em cores chapadas, cujo acabamento é impecável. Em algumas, pequenas formas parecem querer insinuar o movimento sinuoso de moluscos, talvez algum resquício da figuração. O artista brinca com extrema perspicácia e sensualidade com as formas e as cores, mas o jogo é mais complexo. Então sobrepõem placas de metal, cabos de aço, extensores, parafusos e ruelas. Em princípio materiais antagônicos aos planos sobre os quais esses materiais serão trabalhados. O formato que as placas de metal tomam contrapõem a uma certa rigidez das linhas retas e diagonais dos planos, mas em algumas obras dialogam com as pequenas formas sinuosas ali presentes. O tratamento dado sobre as placas evidenciam o total domínio sobre o material utilizado, quer revelando texturas, quer ressaltando diversidade sutis de tons. Outras vezes aparecem placas de madeiras alinhadas verticalmente, onde na aparente rigidez da organização vemos uma ou outra deslocar discretamente para o lado, para cima ou para baixo. Entre as placas cabos de aço são retesados por extensores, exaltando explicitamente toda a tensão que há por trás da aparente calma da obra. Estas formas volumétricas saltam e estabelecem o diálogo entre o bi e o tridimensional, evidenciando ritmo e movimento. Tensão é a palavra-chave nestas obras tanto do ponto de vista formal quanto conceitual. Para os estoicos a tensão é um conceito que designa o princípio interno ativo que mantém a coerência de cada ser, se tentarmos estabelecer uma relação deste conceito com a produção artística de GUIDO HEUER, perceberemos que ela, a tensão, é o princípio que permeia as obras dando-lhes a coerência interna ainda que haja tentativas de subverter a ordem e a coerência. A apropriação de objetos do cotidiano, cuja funcionalidade nada tem a ver com o que se concebe como materiais “nobres” nas poéticas visuais, dando-lhes novos significados, revela o olhar atento do artista para os gestos artísticos presentes na arte contemporânea. Sua poética revela uma maturidade conceitual e plástica, caracteriza-se pela singularidade, mas também pela sua universalidade.”

Nadja de Carvalho Lamas, Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e   Associação Internacional dos Críticos de Arte